
Tipo de exploração:
Captação municipal
Natureza da água:
Água de nascente
Indicações:
Digestiva

[As captações de água camarárias construídas sobre as nascentes]
Época termal
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“Diurética, e desobstruente do estômago” (Aquilégio 1726).
Tratamentos/ caracterização de utentes
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Instalações/ património construído e ambiental
No final da década de 1960 foi construída a estação de captagem do Borbolegão, sendo um dos poços de captagem erigido sobre o Olheirão, referenciado pelas suas insólitas características desde do século XVIII, como relatou o Dr. Germisindo Silva, do Departamento Cultural da Câmara de Grândola: “Há muitas histórias acerca do Borbolegão, essa de se alterar com as marés é mais outra. Mas esta nascente já não é o que era. A água nascia relativamente à superfície, e em miúdo ainda tive ocasião de assistir a isso, a quantidade de água que saía não era constante, havia momentos em parecia que borbulhava de maneira diferente. Era devido a essas diferenças de caudal e de ruído que produzia que as pessoas faziam esse tipo de associação com as alterações do mar. É uma nascente com um manancial de água extraordinário.”
Também a guarda da estação elevatória se recorda como era o Borbolegão na sua infância: “Aqui é que era o Olheirão, chamava a gente. Jogavam coisas ali para dentro aquilo sumia-se tudo, até diziam que ficou ali uma carreta com dois bois, não sei se é tradição se foi mesmo verdade. Agora de jogar coisas lá para dentro lembro-me. Eu andava ali na escola e ás quartas-feiras as professoras vinham para aqui, ainda não existia nada aqui, elas não deixavam, mas a gente, as mais atrevidas, iam buscar pinhas e assim coisas e atiravam lá para dentro e aquilo sumia-se tudo, via-se. Era aqui em volta de uma areia branca, agora está tudo tapado.”A história da carreta de bois engolida pelo nascente ouvimo-la também nos Olhos de Fervença, concelho de Cantanhede, que além desse lendário poder de sucção têm outras semelhanças com a presente nascente: a água também “borbulhava” de uma areia branquíssima, e seu enorme manancial também foi aproveitado para o abastecimento público. Só que em Olhos de Fervença esse aproveitamento contemplou, além da captação municipal, uma ordenada e bem equipada praia fluvial.
Natureza
“Eu lembro-me em miúda, parecia que a água fervia, na areia branquinha” (guarda da estação elevatória).
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Segundo a Corografia (1706: 335-6), “Há no termo desta vila o celebre arroio do borbolegão, assim de água excelente assim por boa, como muita, o qual olho é do tamanho da roda de um carro: neste tem principio o rio Arcam, que se mete no Sado acima de Alcácer […] com esta água moem muitos moinhos todo o ano, e porque o rio com sua corrente se fez profundo que pelo áspero da terra fica incapaz de vau, o proveio a Divina providência com uma ponte , que o mesmo rio fez , rompendo ao profundo da terra por uma rocha de pedra branda, cuja brandura deixando levar do ímpeto das águas, formou um arco, aonde recolhe toda a água, ficando uma ponte, a que chamam dos Aivados, que se vê toda guarnecida de eras, fazendo uma aprazível vista, com a capacidade de passarem carros e carretas sem o perigo de se arruinar […]no borbolegão que acima se trata, se lança do alto um homem a pique, e cravando-se nele até os peitos, o ímpeto das águas o faz vir pouco a pouco, até que apanhando-o com as nádegas fora o lança na margem com tanta fúria e tão leve, como se fora uma cortiça; e o mesmo faz a qualquer pau, que se mete, por grande que seja: dentro dele se ouve estrondos como o que faz na costa o mar bravo, e vagadas na água como nas ondas.”
O Aquilégio (1726) refere que “no limite da vila de Grândola, comarca de Setúbal, se acha esta fonte, por muitas circunstâncias digna de nota. Nasce ela em areia; e pela sua abundância da água, e pela velocidade, e ruído com que corre, lhe deram os naturais o nome de Borbolegão ou Gorgolhão. Fica distante do mar oito ou nove léguas, mas move-se aos seus movimentos, de maneira que quando o mar se altera, se ouve maior estrondo na fonte, e corre a sua água com maior força. Tem esta água todas as propriedades de boa; e ainda que se beba em grande quantidade, nunca faz dano; é diurética, e deobstruente do estômago.”
No Mapa de Portugal Antigo e Moderno (1762) a notícia referente a Grândola é confusa, localizando dois olhos de água com “propriedades contrárias” na “Serra do Algarve, que dista duas léguas desta Vila”. Mas o que talvez seja de reter é, no parágrafo sobre a nascente dos Olhos de Fervença (Cantanhede/Cadima), a justificação que o autor deu a este poder de absorção dos “olhos de água”: “A causa deste fenómeno é, porque ali há alguma oculta catarata, ou precipício, como bem explica o doutíssimo Feijó. Também na Freguesia de S. Mamede, termo de Alcácer do Sal, donde dista 4 léguas, está da parte poente um grande olho de água, que corre para o rio Sado, o qual sorve tudo quanto lhe lançam dentro: chamam-lhe Anceira.”
Ora se o autor fez tanta confusão com as nascentes de Grândola, é bem possível que também tenha confundido Anceira com Arcão, o rio que desagua no Sado, com uma das suas nascentes no Borbolegão e que dista de Alcácer do Sal aproximadamente quatro léguas (cerca de 18 km). Segundo o testemunho da guarda da estação elevatória, o poder de sucção do olho de água é ainda uma memória da década de 1950, o que nos leva a crer que Castro (1762) se referia a esta nascente do Borbelegão.
Quanto à ponte natural talhada na rocha mole pelas águas da nascente, descrita na Corografia, a erosão e o tempo fizeram-na desaparecer, tal como ao Olheirão, substituído por uma central de captagem, construída em 1967, mas, como nos disse a guarda da central, “os engenheiros que cá vieram disseram que se fosse agora já não faziam isto”.
Residenciais em Grândola.
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Castro 1762, Costa 1706, Feijó 1984, Henriques 1726
Freguesia
Grândola
Povoação/Lugar
Estação elevatória do Borbolegão
Localização
A 7 km de Grândola, a 200 m da EN 120, na direcção de Alcácer do Sal, toma-se um estradão à direita no meio do pinhal; a 200 m fica a estação de captagem e tratamento de águas do Borbolegão.
Província hidromineral
A / Bacia hidrográfica do Rio Sado
Zona geológica
Fundo geológico (factor geo.)
Dureza águas subterrâneas
0 a 100 mg/l de CaCO3
Concessionária
captação municipal
Telefone
n.d.
Fax
n.d.
Morada
n.d.
E-mail / site
n.d.

“Das termas aos "spas": reconfigurações de uma prática terapêutica”
Projecto POCTI/ ANT/47274/2002 - Centro de Estudos de Antropologia Social e Instituto de Ciências Sociais